Enduro Mountain Bike: desafio no pedal

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O Mountain Bike Enduro é um esporte relativamente novo, mas muito praticado durante toda a história do ciclismo de montanha: para descer, tem que subir!

E qual a pessoa que pedala que nunca fez isso?

Partindo desse princípio, o Enduro foi sempre praticado, mas não formalizado, já que as modalidades mundialmente conhecidas, até então praticadas com uma Mountain Bike, se dividiam em duas apenas: Cross Country (XC) e o Downhill (DH).

O XC é um esporte olímpico, consiste em ter a maioria do seu percurso com subidas de montanhas e o vencedor é aquele que concluir primeiro o número de voltas estipuladas. O DH é um esporte de descer montanhas e vence o atleta que fizer o menor tempo em sua descida cronometrada - um esporte extremo -, mas ainda não atingiu tal patamar olímpico. Ambos porém, são muito importantes para a indústria e seus pilotos são atletas mundialmente famosos. Vale lembrar que a "ferramenta", bicicleta de um esporte, é completamente diferente do outro. O XC se destaca por bicicletas leves e geometria convencional e as bicicletas de DH são mais robustas, com suspensão dianteira e traseira, grandes e mais fortes para resistir aos impactos, além de outras particularidades.

E a bicicleta de Enduro?

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Pense numa modalidade que você tem que pedalar para chegar no topo da montanha (precisa então de uma bicicleta mais leve, como a do Cross Country).

Para você chegar lá, não precisa correr, nem competir com ninguém na subida. Apenas chegar ao topo num determinado período de tempo programado.

Agora na hora de descer, sua bicicleta apesar de leve, deve ser também robusta e desenvolvida para acelerar na descida e suportar impactos, pulos e obstáculos, parecidos com o Downhill.

Ou seja, temos uma bicicleta diferenciada, ideal para subir e descer as montanhas, tranquilamente.

A competição de Enduro

Resumidamente, é o piloto sobre a montanha. Algumas vezes, não há a marcação do tempo de subida e os pilotos podem fazer a descida por caminhos diferentes, cronometrando apenas o tempo que estiver descendo. Vence o mais rápido no somatório dos tempos (menor tempo computado).

Explicando tecnicamente:

  1. Para subir a montanha, o piloto tem que respeitar sua hora de largada estipulada no QG (Quartel General ou área de organização);
  2. Ele tem um espaço de tempo (D1 - a letra "D" significa Deslocamento) para chegar na sua primeira Largada, no topo da montanha, para descer o Estágio (E1);
  3. Tem que cumprir o tempo de deslocamento (D2) até o Estágio seguinte (E2);
  4. Repete a mesma ordem: tempo de deslocamento (D3) até o último Estágio (E3);
  5. Ao final dessa última parte cronometrada do evento, o atleta tem um espaço de tempo para voltar ao QG para fechar seu tempo de prova.

Cada prova de Enduro tem seu número de Estágios e alguns duram dias. Nos moldes do Brasil Enduro Series, o evento mais importante da modalidade no Brasil, a prova geralmente acontece em dois dias, sendo um de treino e o outro de competição. Para o final de ano está programada uma edição especial com o dobro de dias e estágios.

Deslocamento:

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Esse é o nome do percurso que o piloto faz de um ponto a outro, geralmente subindo, para chegar no topo da montanha, onde fará sua largada para o Estágio (também é conhecido como "Especial"), que é a parte cronometrada da prova.

Sua saída do QG no dia de prova é seu primeiro deslocamento. Esse tempo que ele tem para chegar de um ponto a outro, é uma média feita pelos organizadores (dias antes durante os ajustes) que têm a intenção de fazer com que o piloto não tenha pressa para chegar, mas também não se arraste até sua hora de largada.

Por isso, o piloto de Enduro, tem que estar preparado para, taticamente, saber onde e quando gastar energia.

Tempo cronometrado:

O piloto recebe uma pulseira com CHIP, que ele prende em seu punho direito. Na hora da largada, seja ela qual for (estágios 1, 2 ou 3, lembra?), o piloto encosta seu CHIP numa base eletrônica, que abre seu início de prova naquele estágio . E quando o mesmo chega lá embaixo, encosta novamente o CHIP em outra base, que fecha o seu tempo. Computando assim o espaço entre a largada e chegada naquela parte da pista.


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Equipamentos:

É exigido o uso de capacete durante todas as pedaladas (deslocamento e estágio), sendo permitido o uso de capacete aberto durante o deslocamento e obrigatório o uso de capacete fechado (tipo os de motocross) durante os estágios. Alguns pilotos usam dois capacetes (sendo obrigatório carregar consigo o que não estiver usando), e outros já usam um modelo especialmente desenvolvido para Enduro, que tem o queixo removível.

Óculos de proteção ou Goggle e joelheiras, também são obrigatórios. Outros equipamentos como luva, são sugeridos. Já cotoveleira, protetor de pescoço ou coluna, são opcionais.

Observação:

O piloto de Enduro não pode receber ajuda externa durante a prova (salvo exceções de Áreas de Abastecimento ou Pontos de Apoio da Organização), portanto ele carrega consigo uma mochila de hidratação e algumas coisas básicas como canivete de chaves, peças reservas pequenas e leves e algum alimento.

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É extremamente importante que tudo o que ele leve, traga de volta. Assim, qualquer lixo gerado por ele, deve ser descartado apenas em lixeiras. O descarte de lixo em qualquer parte da prova, fora de local apropriado, faz com que o piloto seja punido com sua desclassificação. O respeito pela natureza é primordial!

Roupas:

Geralmente o uniforme do ciclista de Enduro é alternativo e básico, diferente daqueles ciclistas que usam apenas roupas de lycra.

Uma bermuda acima do joelho e camisas com tecidos leves são as mais utilizadas e também já possuem marcas especializadas focadas nesse seguimento, utilizando tecidos inteligentes e especiais.

Alguns ciclistas usam tênis com solado comum para pedais flat (pé solto) e outros, sapatilhas para clip (pé preso).

Punições:

Além do lixo que citamos, atrasos para as largadas, são penalizados com acréscimos de tempo no seu total de prova. A não utilização de algum equipamento também é passível de punição e, em outros casos, a direção de prova é quem decide. Cada caso é um caso e cada prova vai acabar tendo uma posição para casos específicos, mas no geral, a observação trivial é sempre para as mais comuns: descarte de lixo e atrasos.

Quem vence a prova?

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Quem fizer o menor período de tempo cronometrado, o que constata que ele foi o mais rápido no geral.

É comum o vencedor não ser o mais rápido em todos os Estágios, porém, se for o mais constante e vencer alguns deles, suas chances no somatório final, são maiores. Importante para quem quer vencer uma prova de Enduro, além de todos os aspectos físicos e técnicos que o esporte exige, deve ser o auto policiamento para não cometer nenhuma infração, visto que em estágios curtos e mais fáceis, a diferença de tempo entre um piloto e outro é muito curta: coisa de milésimos de segundos, às vezes. Portanto, tomar a penalidade pequena de 1 minuto, já tira qualquer grande piloto do pódio.

O Brasil Enduro Series - BES

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O evento começou em 2014 (apenas dois anos depois do esporte chegar oficialmente e competitivamente no mundo) e já está em seu terceiro ano. Três estados sediavam a competição em cada ano. As etapas foram alternadas entre Rio de Janeiro (pelos 3 anos), Minas Gerais (2 anos), São Paulo (2 anos) e Santa Catarina (indo também pro 3º ano recebendo uma etapa do evento).

Nos últimos dias 9 e 10 de Julho, rolou a 2ª etapa do BES no Vale das Videiras, região da cidade de Petrópolis, RJ.

Foram cerca de 170 pilotos de diversas partes do país (inclusive dois gringos inscritos) que correram atrás do lugar mais alto no pódio, divididos em 9 categorias.

O evento oficialmente começou na sexta-feira que antecede o final de semana programado, com a abertura da secretaria para a retirada dos Kits dos atletas (numeral, adesivo do horário de largada, chip e brindes). No sábado, a secretaria continua aberta, mas já acontecem os treinos, que são basicamente reconhecimento de pista. Só há tempo para uma descida completa, já que existem intervalos para reconhecer cada uma das 3 pistas dos Estágios.

Domingo é o dia da prova, e nessa, em particular, os atletas passavam pelo Q.G. em todos os intervalos, o que facilitava muito as coisas, não precisando carregar tanto equipamento consigo. Como o Q.G. é sempre ponto neutro, o piloto pode beber, comer e mexer na bicicleta, caso precise. Em outras etapas, por conta de aspectos geográficos, nem sempre se consegue essa logística dos intervalos, ao passarem pelo Q.G. Ponto para Petrópolis!

Em 2015 aconteceu uma etapa na mesma região, e apesar de ser muito elogiada por vários atletas, também teve uma parcela de reclamação. Estrategicamente, não havia nada de errado, pois a prova, última do ano, usou e abusou do terreno liso e de curvas, completando o circuito que havia rolado em Urubici-SC e Nova Lima-MG, ambas com terrenos completamente diferentes.

Dessa forma, novas pistas foram desenvolvidas para dar um upgrade ao tipo de pista que encontrariam (já que não se muda o terreno de uma região) e para uma boa surpresa de pilotos e organização, a escolha das pistas mais longas e com novos obstáculos explorados no Vale das Videiras, foi muito acertada e bastante elogiada!

Os Estágios das provas se resumem em 70% de descidas e os 30%, de trechos retos e quase nenhuma subida. Quando tem alguma subida, são partes curtas e de poucas pedaladas, já embalados pela descida que acabaram de fazer. Dependendo da região, encontra-se lama, terra seca e batida, pedras, raízes e até charcos. Seria perfeito em uma única etapa encontrar esse conjunto de elementos, somando à obstáculos construídos também pela organização, como rampas retas de pallets, pontes de madeiras ou curvas artificiais. Mas nem sempre é assim, e o ideal já se concretiza com a mistura de um ano de prova e o mínimo de 9 estágios, que mesmo diferentes e com seus respectivos elementos, fecham o ciclo com diferentes desafios, a cada prova.

Os vencedores dessa etapa, nas 9 categorias foram:

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  • Elite Feminino: Patrícia Loureiro – 13:45
  • Expert: Thomas Silva Oliveira – 10:47
  • Master 1: Evandro Soldati Dias Jr – 11:16
  • Master 2: Anderson Luis Robl – 11:16
  • Master 3: Armando Pires Neto – 12:28
  • Senior: Robert Marent – 12:50
  • Amador: Gabriel Braga – 12:08
  • Kids 1: Matheus Paiva – 12:15
  • Kids 2: Eduardo Pieri Borges – 13:16

Veja o Resultado Completo no site do Brasil Endurance Series.

Entrevistas com pilotos da Elite (a categoria profissional do esporte):

Diego Knob, Petrópolis, RJ - 3º colocado na etapa Vale das Videiras:

"Sou um piloto de DH que migrou pro enduro. Mas ainda ando de DH pra manter a "pegada" e a leitura agressiva das descidas, além de praticar Crossfit.

Fui Campeão Estadual de DH em 2008, 2009 e 2010. Em 2010 também fui Campeão Brasileiro.

No circuito de Downhill Urbano já consegui uma classificação geral de 3º, no final de uma temporada e eu só andava por diversão nessa modalidade.

Fui Campeão no Serra All Mountain Series em 2013 (evento que aconteceu em Petrópolis e serviu de base para o desenvolvimento do esporte e o nascimento do BES).

Já no BES, terminei o primeiro ano do evento, 2014, em 4º lugar.

Fechei 2015 em 3º e fui Vice campeão na Etapa Latino Americana de Enduro."

Perguntei o que é o Crossfit e como pode ajudar nos demais esportes:

"O Crossfit é esporte e também uma metodologia de treino completa, como se fosse um funcional mais intenso, adaptável à muitas modalidades esportivas. Pratico há 2 anos e me tornei vice campeão estadual recentemente, no Arnold Inter Rio.

Mantenho os meus treinamentos com foco total pra ter um bom desempenho em cima da bike e isso tem me trazido diversos outros benefícios. Estou desenvolvendo um treinamento específico para bike atualmente, com os atletas de Petrópolis. Em breve terei novidades nessa questão."

E sobre preconceito e receios contra o Crossfit?

"As pessoas enxergam, sem base alguma de conhecimento, como algo que vai lesionar ou prejudicar, mas é como bicicleta. Você não vai pegar uma bike de DH e descer um morro cheio de obstáculos e desafios sem nunca ter andado de bike. Então você começa do início e dentro da técnica, se desenvolve e vai passando estágios, etapas. É um esporte comprovadamente para todo mundo, diversas idades e condições físicas, além de ajudar demais em outros esportes que você pratica."

Barbara Jechow, a "Babi", Belo Horizonte, MG - 3ª colocada na etapa Vale das Videiras:

"Sou atleta profissional de DH e Enduro, ando de bike há, apenas, 6 anos. Profissionalmente, há 2, somente.

Fui Campeã Brasileira de DH, ganhei o DHU de Santos, fui 4 vezes Campeã Mineira e Vice-Campeã no Enduro.

Tenho treinado bastante, com muito foco pro Enduro. Apesar de estar muito gripada nessa etapa, o que me prejudicou bastante, espero conseguir andar bem. Vi as pistas no sábado e têm muitas descidas, então estou confiante por bons resultados.

Como treino, tenho um treinador para resistência e funcional, uma fisioterapeuta pra cuidar de minhas lesões e também faço Crossfit, que é um esporte que tem que me ajudado muito desde que comecei, e você vê resultado muito rápido. Não concordo com a opinião de pessoas que falam que machuca, mas você tem que saber executar bem as técnicas, que são muito importantes, e procurar lugares que tenham certificado de Crossfit. Geralmente quem machuca é quem passa dos limites e Crossfit não é esporte pra você querer passar dos limites. Tem que se respeitar! A maioria dos campeões mundiais praticam e desde que eu comecei a treinar, meus resultados na bike também melhoraram. Você fortalece muito! Os treinos onde você consegue manter a estabilidade e equilíbrio fazendo força, ajudam demais quem anda de bike."

 

Leia mais sobre o Crossfit em >>> Crossfit é para todos!?

ps.: notícia quentinha, a Babi foi a campeã brasileira de Downhill 2016, ontem, 24/07!

Se você curtiu esse texto, dá só uma olhada no vídeo do evento desse ano da Brasil Enduro Series:

 


Fontes

 Brasil Enduro Series

Créditos

 Fotos: Rodrigo Philipps

 

Jony Anderson

Publicitário . Biker . Construtor de Pistas de Bike . Piloto de Pumptrack For Fun . Skatista Aposentado. Editor do Vida de Tsuge e agora, também, escrevendo matérias de Esportes Radicais para o Eu Te Incentivo.