Travessia mundo afora: dê os primeiros passos nessa expedição apreciativa e desafiadora

Travessias: Encarando de Frente

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Quando iniciamos no universo das trilhas, normalmente, se começa por caminhos mais curtos e leves, para testarmos se somos capazes de chegar ao final, com tranquilidade. E aí, você acaba tendo uma boa experiência com as primeiras trilhas, começa a tomar gosto por esse mundo e vai praticando com uma frequência cada vez maior. Em pouco tempo, conhecerá algumas histórias de caminhos mais longos e pesados e se vê pesquisando sobre o assunto: travessia.

Considera-se como travessia, um percurso longo que você atravessa a pé, de bike, a nado, de carro (tipo rally)... e eu vou contar a minha história de travessias feitas a pé. Neste caso, a travessia é uma trilha de longa distância que começa em um determinado ponto e termina em outro no qual, em condições normais, se leva mais de um dia para completar ou que, pelo menos, dure um dia inteiro para concluir. Na maioria das trilhas que existem, qualquer pessoa que não tenha uma limitação física, está apta a fazer. Porém, uma travessia exige preparação e cuidados prévios, que listo a seguir:

1) Boas condições físicas: Não é todo mundo que consegue andar por mais de 6 horas, em um dia, com uma mochila que pode pesar 15kg ou mais. Não dá para descobrir no meio de uma travessia, que se está cansado demais para continuar. Faça exercícios regularmente e tenha o hábito de fazer trilhas.

2) Equipamentos adequados: Hoje em dia existem muitas opções de marcas e tipos para um mesmo equipamento. Porém, existe um conjunto de itens que são básicos para se fazer uma travessia com segurança e tranquilidade. Use botas confortáveis, com meias grossas, específicas para trekking. Se tem uma coisa que pode acabar com a sua trilha, é ficar com os pés destruídos por bolhas. É importante, também, utilizar uma mochila apropriada, que tenha um encaixe ergonômico e ajustes para regular a altura adequada. Isso pode evitar dores e incômodos nas costas, ombros e lombar. O uso de roupas confortáveis e respiráveis, mais um bastão de caminhada, podem te trazer uma facilidade maior no trajeto. E nunca se esqueça de levar uma capa de chuva e lanterna, pois pode chover ou ter que se fazer caminhadas noturnas.

3) Ir com um guia: Nunca tome a iniciativa de entrar numa travessia simplesmente porque já foi uma vez, e acha que sabe o caminho, ou porque pesquisou o trajeto na internet e colocou o mapa no seu celular. Ser guia é muito mais que isso! Um guia é capaz de se orientar mesmo sem nunca ter passado pelo caminho a ser trilhado, além de ter a experiência e capacidade suficientes para achar uma solução no caso de alguma adversidade ou acidente.

4) Força de vontade e positividade: Em alguns momentos da trajetória você até pode sentir cansaço, dores, sede ou fome. Nesse momento, é importante ter o poder de se concentrar no objetivo e ir até o final. Mesmo que dê vontade de desistir, tenha perseverança e encontre forças para continuar. No final, tudo é recompensador e sua autoestima irá para a estratosfera!

No Exterior

No Brasil, mesmo com várias opções de percursos, a prática de travessias é bem menos difundida do que em muitos lugares no exterior. Nos Estados Unidos, por exemplo, existem várias travessias de longa distância bem estruturadas, com sinalização e logística apropriadas para a prática da atividade. Talvez, a travessia mais difundida por lá seja a Pacific Crest Trail – PCT (que ficou mais conhecida após o filme “Livre”) com um trajeto de 4.260 km, que vai da fronteira do México com os Estados Unidos, até a fronteira com o Canadá. As altitudes oscilam entre o nível do mar até cerca de 4.000 mt de altitude e estima-se que demore de 4 a 6 meses para completar todo o seu trajeto a pé. O mais comum, são as pessoas escolherem trechos mais curtos que durem um fim de semana ou até uma semana de caminhada.

Mas não precisamos ir muito longe para curtir uma travessia internacional. No Peru, mais especificamente em Cusco, existe o Camino Inka, com o seu percurso tradicional de 4 dias. O trajeto de 23 km, passa por diversos sítios arqueológicos até chegar à cidade de Machu Picchu, chegando a incríveis 4.200 mt de altitude. Como é um caminho muito procurado por pessoas de todo o mundo, a sua entrada é altamente controlada por companhias de ecoturismo e é necessário agendar a sua travessia com alguns meses de antecedência para garantir a sua participação.

Apesar disso, é uma experiência incrível conviver com gente de diversas nacionalidades num ambiente histórico (e para alguns, até uma experiência espiritual) passando por altitudes significativas, culminando num cartão postal da humanidade. Por conta do viés comercial, não é necessário se preocupar com a logística da expedição. Apenas ponha a mochila nas costas e aproveite o cenário maravilhoso.

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A Mais Tradicional

Pra quem é morador do Rio de Janeiro, como eu, existem algumas boas opções de travessias que não ficam longe daqui. Ao longo da minha vida como montanhista, percebi que acabei não fazendo muitas travessias como gostaria de ter feito, mas nunca é tarde para reverter isso.

A primeira que fiz e, provavelmente, deve ser a mais tradicional travessia do Brasil, foi a Travessia Petrópolis x Teresópolis (ou Petro x Terê). Ela tem cerca de 28 km e está situada dentro do Parque Nacional da Serra dos Órgãos (PNSO), ligando as duas cidades que dão nome ao percurso. O usual é que se leve 3 dias para completar o trajeto, mas existem várias pessoas que fazem em 2 dias ou até mesmo em um único dia. O trajeto é característico por possuir uma elevação significativa ao longo do percurso e muito sobe e desce por vários morros e também tem umas poucas partes em rocha que, para os menos experientes, pode parecer um tanto desafiador. Ah! Mas o visual é espetacular, principalmente quando se avista a cadeia de montanhas mais característica do PNSO, como o Dedo de Deus, a Pedra do Sino, o Escalavrado, dentre outras.

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Ainda estamos muito longe de ter uma travessia com a extensão da PCT por aqui, mas hoje em dia já podemos encontrar algumas travessias que necessitam de mais de 1 semana para serem concluídas. Como exemplo, podemos destacar a Trilha Transcarioca, que está em fase de conclusão do percurso, mas já tem a sinalização pronta, em mais de 100 km dos 170 km previstos na sua totalidade.

A sinalização desta travessia é bem peculiar, já que ela consiste numa pegada de bota com a figura do Cristo Redentor carregando uma mochila desenhada na sola, na qual a cor amarela sinaliza um sentido, enquanto a cor preta sinaliza o sentido inverso. Essa marcação já ajudou muita gente a não se perder nas matas do Rio, já que no Parque Nacional da Tijuca (PNT), por onde passa a travessia, havia o registro de cerca de 100 pessoas perdidas por ano em 1999. Atualmente, 5 pessoas se perdem, em média.

O trajeto se inicia em Barra de Guaratiba e vai até o Morro da Urca, passando pelo Parque Estadual da Pedra Branca (PEPB) e pelo PNT, dentre outras áreas de preservação ambiental da cidade do Rio de Janeiro. É possível fazer trechos da Trilha Transcarioca sem precisar atravessá-la integralmente. Particularmente, ainda não fiz a travessia completa, apesar de já ter feito diversos trechos em separado. Claro que está na minha lista de lugares que tenho que conhecer.

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Pensando Em Segurança

Não devemos achar que somos capazes de guiar uma trilha só porque é possível colher algumas informações e entrar no mato. Isso fica muito claro quando vemos os casos de pessoas que se perdem ao fazer uma trilha.

Recentemente, tivemos um caso desses na Travessia Cobiçado x Ventania, em Petrópolis, que liga o Morro do Cobiçado até o Alto da Ventania, passando por outros morros numa trilha considerada semipesada, com cerca de 14 km. Uma pessoa convidou alguns amigos, através de redes sociais, para irem com ele na Cobiçado x Ventania e como ele já tinha ido uma vez e “conhecia o caminho”, ninguém teria com o que se preocupar.

Porém, no meio do caminho, depois que um dos participantes se machucou, o “guia” resolveu voltar com outras pessoas do grupo para pedir ajuda. Como essas pessoas estavam lentas, o “guia” resolveu deixar todo o seu equipamento com eles e partiu sozinho. O inesperado aconteceu, o “guia” se perdeu e passou 2 noites (uma delas choveu bastante e fez frio) sem contato e sem equipamento até ser encontrado (passando bem), enquanto que os demais participantes já haviam sido resgatados pelos bombeiros, no primeiro dia de trilha. Esse é um caso típico de pessoas que se perdem no mato, após uma sequência de decisões erradas que são tomadas por indivíduos que não estão preparados para tal responsabilidade.

Travessia Pesada e Sua Logística

Também existem algumas opções para quem quer encarar um pouco mais de dificuldade e vencer desafios. Quando pensamos em algo assim, vem à cabeça a Travessia da Serra Fina, que se pensou que seria a travessia mais difícil do Brasil. Apesar de ser uma travessia dura, podemos dizer que existem outras travessias com dificuldade maior, tais como as existentes na Serra do Mar, no Paraná ou a Transmantiqueira, que passa pelo Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

A Serra Fina começa em Passa Quatro (MG) e termina próximo as cidades de Queluz (SP) e Itatiaia (RJ), atravessando cerca de 33 km por mais de 20 pontos com mais de 2.000 mt de altitude (passando pela Pedra da Mina e o Pico dos Três Estados, 5º e 11º maiores picos do Brasil, respectivamente) e que, normalmente, se faz em 4 dias, mas que pode ser feito em 1 dia, dependendo da logística e da disposição física.

Além das características apontadas, que já dão uma ideia das dificuldades a serem encontradas, um ponto importante, que faz a Serra Fina ser especial, é a logística que o montanhista tem que adotar para ter sucesso na empreitada. Ela é conhecida pelos poucos pontos de água existentes (ao ponto de poder ficar até 1 dia e meio sem encontrar água) e é de suma importância saber tomar a melhor decisão entre o quanto carregar nas costas (que já tem bastante peso com barraca, agasalho, comida, fogareiro, entre outras coisas) e como usar esse recurso escasso, seja para beber, cozinhar, lavar utensílios ou até escovar os dentes. A boa notícia, é que o visual da cadeia de montanhas faz tudo valer a pena!

O Que Importa é Estar na Montanha

Enfim, existem inúmeras travessias pelo Brasil: Tabuleiro x Lapinha (MG), Marins x Itaguaré (SP e MG), Travessia dos Campos dos Padres (SC), Travessia da Serra do Ibitiraquire (PR), Vale dos Deuses x Vale dos Frades (RJ) e essa lista não acaba nunca. Como cada uma tem a sua peculiaridade, você vai acabar descobrindo que cada travessia vai te encantar por um motivo diferente e os perrengues que acontecem, farão parte da história a ser contada.

Com tanta opção, tem horas que fica até difícil decidir por onde começar ou a próxima a escolhe. O que importa mesmo, é estar na montanha!

*Travessia, também pode ser conhecida como trekking de longa distância.


Referências:

Trilha a Pé
Parnaso Turismo
Trilhas & Rumos
Rio Caminhadas
Mochileiros
Nativus Aventura
Peru: Trilha Inca

Vinícius Araujo

Montanhista. Crossfiter. Judoca. Mud Racer. Ciclista. Atualmente, novo colunista do Vida de Tsuge no assunto: Esportes Radicais!