Não sei ao certo o momento em que o cinema entrou em minha vida. Quando percebi tinha se tornado uma espécie de obsessão e o meu quarto inteiro cheio de referências e recortes, ia sendo moldado de acordo com os filmes da minha vida.
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Yasujiro Ozu e a reflexão sobre as relações humanas

Hoje cedo acordei e resolvi rever um de meus cineastas favoritos, Yasujiro Ozu. Pensei em fazer mais algumas listas de sugestões e me deparei com “Tokyo story”( Era uma vez em Tóquio). Uma joia lançada em 1953 que conta a história de um casal de idosos que viaja a Tóquio para visitar seus filhos. Ansiosos pelo reencontro, ambos deparam- se com as impossibilidades. O filho é um médico ocupado da região, a filha enxerga os pais como um inconveniente e naquele momento o refúgio dos dois se torna a viúva de um dos filhos. O filme é uma das mais belas demonstrações do cotidiano japonês e é tecido, fio a fio com delicadeza e primor através do olhar de Ozu. As relações familiares, as sutilezas dos detalhes do dia a dia, desenhado pelos anos de convívio do casal de idosos. O ano é 1953, o mundo pouco tempo atrás, deixava de viver um conflito que marcou a história mundial e principalmente a japonesa. Com o fim da Guerra, o tempo já não se passa da mesma forma, a sociedade se ocidentaliza a passos largos e essa transição é percebida através dos filhos que vivem pelo trabalho. O filme traz o mote das relações humanas, o respeito e carinho pela família, a simplicidade do exercício de viver, além de traçar de maneira sutil as transições que ocorreram na sociedade pós-guerra. O mundo não é mais o mesmo; nós também não.

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Era uma vez em Tóquio fala das relações, bondade, egoísmo, traz sua crítica à sociedade recém-transformada, mas transborda significados. O filme toca e provoca de maneira delicada uma reflexão. Entre vivos e mortos, Ozu, respeitosamente, nos convida a ressignificar.

Ozu sob as lentes de Win Wenders

Yasujiro Ozu é um nome poderoso na história da sétima arte. Respeitado mundialmente pelo seu trabalho, iniciou sua jornada na era do cinema mudo. Curiosamente faleceu no mesmo dia em que nasceu, 12 de dezembro de 1963, com apenas 60 anos e uma obra que influencia gerações. Akira Kurosawa e Kenji Mizoguchi foram tocados pelo seu estilo, sem dúvidas. Wim Wenders filmou “Tokyo-Ga”, um documentário sobre Ozu. Jim Jarmusch e Hal Hartley seguem de perto os seus ensinamentos.

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“Era uma vez em Tóquio”, em sua cena final, a personagem pega seu trem de volta à cidade, a câmera capta o olhar e nele um mundo inteiro de possibilidades. Ozu era assim, olhares e gestos, ações olhando para a imensidão. Yasujiro Ozu nasceu e morreu em Tóquio, em dezembro. No seu túmulo não se lê o seu nome, apenas o ideograma “mu”, que significa nada. Siga a gente nas mídias sociais e fique por dentro de tudo que rola no Vida de Tsuge.

Nos vemos em breve e até a próxima!

Referências: Japan Times - Yasujiro Ozu Wikipedia - Yasujiro Ozu

Cantora e compositora. As próprias custas produção cultural. Nova redatora do Blog Vida de Tsuge, tem a missão de trazer e disseminar a arte e cultura japonesa.